Sejam bem vindos!!

























sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Desped(ir)








Não aprendo a te ver partir...

Sem que meus pés estejam sobre os teus, quando tão por brincadeira, te peço para me conduzir.

Não aprendo a te ver partir...

Sem que teu beijo seja o final de tudo, teu abraço, teu toque de veludo.

Não aprendo a te ver partir...

Sem a saudade após o encontro diário com a tua fala, que tanto gosto de ouvir.

Não aprendo a te ver partir...

Sem as mãos entrelaçadas até andando pela casa.

Não aprendo a te ver partir...

Sem fixar meus olhos nos teus e ver a pureza neles estampada.

Não aprendo a te ver partir...

Sem um abraço demorado, daqueles de sexta à tarde.

Não aprendo a te ver partir...

Ainda que a distância seja apenas a de um passo.

Não aprendo a te ver partir...

Porque a geografia é mínima diante da saudade.

Não aprendo a te ver partir... 

Porque você já faz parte de mim.

Não aprendo a me despedir e não me ensine jamais.










sábado, 25 de janeiro de 2014

Autobiografia



         O lugar em que estava era calmo, as folhas das árvores faziam movimentos de acordo com o vento que as agitava. A relva era um convite para o descanso e a sombra das folhagens oferecia uma brisa aconchegante. Contemplava o azul claro que se apresentava naquele dia, esplêndido. Quando ao longe vi que alguém corria ao meu encontro, por mais que tentasse, não conseguia decifrar a sua fisionomia. Cada vez mais ela se aproximava e comecei a perceber uma familiaridade nos seus gestos. Até que chegou perto, e então notei que aquela criatura, possuía a minha face de criança, estampada em seu rosto.

   Não dissemos palavra, eu só conseguia olhar. A emoção de se perceber na infância é indescritível... Aquela criança à minha frente apenas sorria e era muito bom sentir-se aceita daquela forma. Ela inclinou-se à minha direção e pegou na minha mão. Nesse instante como uma mágica fantástica, saímos a voar... Eu mantinha os meus olhos fechados, pois tinha medo de altura, entretanto, percebi que ela se divertia entre risadinhas e pedidos para que eu curtisse a aventura. Então tomei coragem e abri os olhos. Nossa! Era uma experiência maravilhosa, os cenários e paisagens mudavam constantemente.
     Ela falou ao meu ouvido que me levaria a lugares que me trariam recordações. E sem que eu esperasse muito, logo reconheci a casa da minha avó onde passei parte da minha infância. Descemos por um momento e entrei na casa. Vi os cômodos antigos, senti o cheiro da canjica que ela mexia ao fogo, minha irmã sentada ao chão da grande área, na qual brincávamos o dia inteiro de boneca, o quintal repleto de plantas onde corria sem preocupações, e também retirava goiabas da grande árvore que se localizava ao centro do terraço. Ao pé do portão da frente, contemplei toda a rua, em que brinquei de queimada, amarelinha e me escondia ao som da voz que contava de 1 a 10.
    Fui informada que precisávamos ir... Segurei forte em suas delicadas mãos. Apesar de sua pequenez, sentia-me protegida. Notei que estávamos acima de um prédio para mim inesquecível. Novamente paramos na calçada e ao levantar a cabeça vi a fachada que dizia: Jardim Escola Mistério do Saber, sem dúvidas era o lugar onde descobri as primeiras letras. Ali aprendi além do alfabeto, a superar os medos que se me apresentavam gigantes. O nome da escola que aprendi letra por letra a ler, foi mais que um nome, era um prelúdio de que toda a minha vida procuraria desvendar os mistérios do conhecimento.  Caminhei para dentro e percorri corredores, salas e pátio. Em cada ambiente vazio enxergava crianças que corriam suadas e coradas pelo calor, brincadeiras infindáveis que inventávamos. Gritos e o sinal que tocava para o recolhimento. No primeiro dia de aula senti o cheiro de crianças bem perfumadas para a estréia, cheiro de lanche da hora do recreio, e o choro desesperado de medo e desamparo. A cantina que só foi usada mais tarde, após a constatação de que não era mais apropriado levar o próprio lanche. Por um momento fechei os olhos para ver melhor, e ao abrir fui surpreendida pelo vôo acima do morro, no qual brincava nas sextas-feiras subindo e descendo na areia quente.
       A próxima parada foi na casa dos meus pais em que fui morar apenas no final da infância e adolescência. O lugar inicialmente desconhecido foi aos poucos se tornando familiar, e lá passava horas e horas conversando com os clientes do bar de propriedade do meu pai. Eles contavam histórias que naquela época não entendia. Contemplei a rua que percorria e a fuga de bois bravos que pastavam num campo, e que corriam atrás de nós ao atravessá-lo vez em quando. Lembro-me do dia em que nos mudamos de lá, foi triste. Os vizinhos todos olhavam para o caminhão que continha nossos pertences. Apenas deixávamos para trás as lembranças de um tempo bom. Não imaginava que nos mudaríamos ainda muitas vezes, após esse momento para que chegássemos ao lugar onde atualmente moramos.
      Ainda estava absorta em lembranças quando fomos embora novamente. Agora ela preveniu-me de que o passeio estava chegando ao final. O lugar escolhido foi a escola onde descobri que crescer não é tarefa fácil! Escola Estadual Lauro de Castro, onde cursei o ensino fundamental. Lá foi o lugar das descobertas, da primeira paquera, das primeiras decepções, da constatação de que a inocência ainda não havia se despedido. Onde os problemas pareciam bem maiores do que realmente eram. Caminhei pelo pátio, cenário de muitas conversas, pelas salas, cenário de aulas inesquecíveis.
     Não demorou para que, sem que percebesse, estivesse no ar novamente ao lado de pássaros em bando. Dessa vez percebi que era a reta final. Vi o prédio em formato de X, que reconheci ser a Escola Estadual do Atheneu. Entrei e ao atravessar o portão todas as recordações se materializaram. Vozes soavam, jovens corriam ansiosos, Passos ligeiros subiam as grandes escadas com olhos de expectativa. Lembro de ter sentido medo a primeira vez que vi a grandeza do lugar. Era tudo muito novo para mim. Certamente aquele lugar transbordava historicidade. Era um prédio antigo. Minha mãe havia estudado lá. E quando percorria os corredores enormes, lembrava que um dia os pés dela pisaram o mesmo chão. Fechei novamente os olhos para sentir o cheiro que emanava da biblioteca que tanto gostava.
          Um momento  mágico, daqueles que nunca se esquece, minha miniatura tão inocente e singela, fez-me sentir novamente, não sei como, o abraço da aprovação do tão sonhado vestibular. Tantas tentativas se concretizaram naquele abraço do meu pai, no olhar de alegria da minha irmã, no rosto de surpresa da minha mãe, foi maravilhoso saber que meus esforços foram recompensados. Nos muros do conhecimento, descobri e continuo descobrindo verdades dispensáveis e outras fundamentais. Lá encontrei também o amor e a razão da felicidade!
     De súbito abri os olhos e qual não foi a minha surpresa quando minha adorável companheira havia sumido. Ainda confusa só conseguia sorrir, porque sabia que a partir de lembranças tão doces, cheias de conquistas simples, porém repletas de significados, é que podia sentir-me mais forte para o que ainda estava por vir.
   
    

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Pelos olhos teus...


Suas mãos estão pousadas no rosto, como quem espera um milagre não anunciado. Olhos perdidos no horizonte, fala inaudível, semelhante à alguém que dialoga consigo mesmo. E em meio à paisagem áspera dos dias que se seguem ruins, ele não pede muito da vida, brada somente que os céus possam, quem sabe, escutar-lhe as preces.
         E ali, parado, olhando para o nada tão grande, ele se lembra dos dias de céu pesado. Dos caminhos cheios de barro, das pedras molhadas, da terra alagada. Lembra-se das horas de alegria intensa, pela cor da esperança tão à vista de seus olhos. Recorda-se das águas tão fartas que um dia circundaram seus territórios. Quanta felicidade era para o seu velho coração, encontrar a fartura de suas plantações, a cor e o brilho da natureza por ele cultivada.
       Seria porventura, pedir muito, se clamasse apenas trabalho para seus braços ainda fortes e relutantes? Seria maldizer se todos os dias ele acordasse ansioso pelo cheiro de terra molhada e apenas lamúria encontrasse, ao ver em seu lugar o aroma quente e seco dos dias de estiagem? Não, meu querido sertanejo, se Deus nos primórdios do mundo “condenou” o homem a viver do suor de seu trabalho, por certo não se importaria de escutar vossos lamentos.
     A tua crença é tão digna quanto qualquer Deus que se possa adorar. Tua fé é pautada no que mais podes admirar, naquilo que pulsa em teu coração. Nas águas, no ar, no verde de cada árvore que se ergue em cada estação, no plantio e na colheita, nos animais de criação, nos pássaros que anunciam o inverno ou verão. Se a natureza pudesse um dia te falar com lábios e olhos para chorar, diria que todos os dias enxerga a esperança em ti bradar, que tuas lágrimas não serão esquecidas, que teu respeito pela mãe de todos os seres, um dia será recompensada.
      Por teus olhos e exemplo eu aprendo. Aprendo bem mais que nos livros. E sentado embaixo da árvore, olhando para você, eu levo para a vida lições que iguais não poderia ter, em universidade qualquer. Assim, eu observo no dia nublado tua esperança, eu noto bem mais que os outros poderiam ver, eu vejo tua expectativa no horizonte que não chega.



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Só agora

O tempo é como um poema.
Um poema que se termina de repente.

O poema  nasce na desventura da rima.
A rima se faz com o tempo.

O tempo exige  paciência e rapidez.

O tempo precisa...

De ouvidos atentos
De olhos dispostos
De sentidos ligeiros

O tempo e o poema.

Ambos precisam de tempo para que o tempo 
cuide dos sentimentos
Que surgem com o tempo.

O tempo é espelho que não se enxerga totalmente.
O tempo não espera pelo reflexo.
O tempo olha simplesmente.

E nisso o poema corre risco.
Ele precisa de demoras, precisa de tempo.

O tempo curto precisa de tempo para distâncias longas,
Precisa de um pouco de solidão para caminhar 
E quem sabe chegar.

O tempo carece de horas jogadas ao vento.
Ou mesmo de tempo sereno.

O tempo está em todo momento.
E se faz é agora.




terça-feira, 19 de novembro de 2013

♥ Meu amor


O que foi acaso
 converteu-se em prazer 
As conversas sem maiores implicações 
agora são tardes de emoção.

O que os olhos já gritavam, 
       Os sorrisos teimavam em disfarçar 
nas sombras do desapego.
Nosso amor, já era tudo antes de ser.
Os encontros já tinham um sabor adocicado.

O amor já se mostrava.

Dizer do amor que se escancara 
é como falar do sol que anima lá fora
Da lua que reluz pelas lacunas da casa
Amor é tudo que não sei dizer agora
É o que a boca cala para dar parte às palavras

Amor é aquela lágrima...
Amor é aquele sorriso ao ser beijada...
Amor são àquelas horas de risadas...
Para ser amor nada mais necessita, 
além de tudo que jaz pousado
em nossas asas

Já era amor dentro de mim e de você

Amor foi o que me destes sem eu merecer.
Amor é olhar para você
É a poesia do seu dizer.
Amar é não saber por quê.

Amor não se traduz, 
nem aqui nem em folha qualquer.
Isto não posso, definir meu amor 
seria enquadrá-lo, e ele só deseja ser.

Tua paz é o que me move
Tua voz toda noite me conforta
Teu ombro me aconchega 
como uma mãe pássaro protege sua prole.
É em teus braços grandes que me desfaço, 
me faço e refaço.
É no brilho do seu amor 
que vejo as estrelas no ar.

Amar você é ter tudo e nada carecer
É a felicidade como todos gostariam de ter
É não ter reservas
É gastar tudo de uma vez
Sabendo muito ainda ter.

Eu te amo com calma e euforia

Te amo como quem dança à falta de música
Te amo com sinceridade infantil
Te amo com a alma toda
Te amo com o corpo pleno
Te amarei a vida inteira.




terça-feira, 1 de outubro de 2013

Nada leve


O que posso sentir, senão o que de dentro me confronta, me enfrenta, me espanta?
O que posso tocar senão os meus anseios e desejos, às vezes tão mesquinhos, tão infames?
O que não suporto, o que me retorna de fora e de dentro, dos lados e me devora.
 A vida sempre devolve da mesma forma.
Quem pode deixar de ser o que foi de antemão considerado?
Ninguém pode escapar da vida e até mesmo a morte não pode nos roubar a hora da partida.
O que de você me é apresentado, o que de mim não tenho como único, o que de tantos me disfarço?
Tenho de mim, de você e de outros que nunca olhei.
O que minhas verdades dizem é a mentira da humanidade.
O que sei é o que todos sabem.
A subjetividade é uma máscara que se usa para não enlouquecer, para não esquecer
a poesia do mundo.
É o choro, é o desespero, sou eu sozinha assim, dentro do quarto.
Meu olhar é mudo, meu olho escuta, meu ouvido fala.
Tudo fala por mim, tudo se move, tudo cala em mim.
Olhe suas mãos, sinta seu coração.
Veja como pulsa, arde...

É a vida e ao mesmo tempo a morte.





segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Outono dos dias


Tenho medo do cansaço...

De faltar a vontade, faltar a alma, faltar a calma.
De  andar somente por andar.
 De o sorriso me deixar, da alegria se dissipar.
De querer menos, do fim e de acabar.
De não enxergar, da invisibilidade,
De naturalizar os encontros.
Medo de não me achar.

Tenho medo do cansaço...

De não saber ouvir, das vozes que porventura posso ignorar.
De não perceber, de não saber, de não poder me expressar.
Da rotina, dos dias que vão saindo de cena
e voltando com o mesmo ar.
 Medo dos desentendidos, dos ditos e não ditos.

Tenho medo do cansaço...

Do desamparo, do sono que as noites me roubam.
Da desistência, da vida acabar.
De esquecer os sonhos, de deixar pra lá.
Medo que o medo me tome, da tristeza chegar.
Da omissão, do olhar e passar.

Tenho medo do cansaço...

Do ócio injustificado.
Da falta de iniciativa
Medo dos porquês de todo dia.
Tenho medo do tempo, ligeiro que passa.
Receio os obstáculos miúdos e as explicações vazias.

Tenho medo do cansaço dos dias...


sábado, 24 de agosto de 2013

Meu viver!


Fechei janelas importantes, eram cheias de grades que me prendiam, grades invisíveis, idéias arraigadas a mim, e eu não percebia assim. Mas não as cerrei por definitivo, elas continuam esperando por mim, não abandonei meus intentos passados, meu velho assoalho. Tudo que construí acima dele, ele, por vezes, me recorda o que antes me atrelava ao chão. Um ser, um lugar, uma ideia, um amor de rei. Dias ensolarados, dias convencionais, dias repletos de conformismo, de injúria, de querer ficar, de sair sem rumo, de olhar nos olhos, de fugir de lá. Um dia eu olhei para trás, eu toquei o chão, eu quis parar, não pude voltar. Uma página saiu voando, com uma ventania que jamais passará. Um dia, faz tempo e o tempo se faz agora. Houve um tempo que o dia era futuro e o futuro agora. Houve em mim jardins com olhos humanos, em cada olho um lugar e um ideal de ego que eu não podia explicar.  Andava e meus pés queriam voltar, havia pouca paz e muita melancolia. Ainda não sei em qual janela permanecer, qual a melhor paisagem. Não sei dizer se o céu que hoje contemplo é mesmo o reflexo do dia que não passa, do dia que nunca passará. Existe um tempo eterno? Um momento que pode durar? Eu vivo como quem não sabe olhar, eu vivo com meus limites, com tudo que sou agora, eu vivo como quem luta e não sabe contra quem lutar. Eu sigo em frente e não quero mais voltar, eu continuo num caminho que parece o melhor, eu deixei outra vida antes e preciso, pelo menos, saber o que deixei para lá. Me pergunto quem sou eu, quantos não já perguntaram? Eu sigo perguntando quantos passos valem a pena, quantos caminhos caminhar, eu pergunto todo dia que é essa psicologia? Eu pergunto quem vai me explicar. Quantos olhos encontrei! Olhos mesquinhos, olhos de burguês. Encontrei olhos vazios também olhos de amor e prazer, olhos de piedade, encontrei você. Falei para ouvidos atentos, falei como quem canta uma música indecifrável, falei e falei. Ouvi histórias tristes, ouvi piadas que me fizeram rir, ouvi sem querer, ouvi sentindo uma dor que nunca havia sentido, era amargura, aflição, agonia. Tive que ouvir, tive que segurar o choro, a voz, tive que sair ereta, tive que permanecer. Quantas casas entrei, quantos dias me escondi de mim, só pra me defender. É duro olhar e sentir que a vida é tão mesquinha assim, mas a vida me alegra quando sabe agradecer, quando devolve a alegria, quando a esperança é madrinha, quando  se busca um refúgio em olhos que brilham, em mãos que se mexem, em sorrisos que me apetecem. Descobri que as janelas alheias são cheias de medo, de desespero. O que me acalenta é sentir o cheiro das rosas por algumas janelas que vejo. Passantes felizes, outros que andam só por andar. Eu estou aqui, é difícil enxergar, é difícil escutar, é difícil falar na hora...(?). Se as pessoas erram, não é porque elas querem errar, quase sempre, não sabemos enxergar, escutar e falar na hora certa.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Metalinguagem ...






Adoro dizer o que sinto e usar a razão.
Um amor razoável que se esconde da emoção. 
Falamos abertamente da beleza de nos caber. 
É como correr ao encontro de nós dois, sabendo sempre nos ter. 
Se digo sobre a beleza da lua automaticamente estou falando de você. 
Se falo das estrelas é porque me lembram você. 
Se, por acaso, falo do fim, só quero que  perdure para mim.
 As palavras que saem daqui estão querendo
encontrar o princípio e nunca seu fim.
É apenas o medo de pertencer e depois somente perder.
 Nosso amor é consciência e sensatez, 
é como voar sem ao menos sair do chão, 
ter o brilho nos olhos e o coração na mão. 
Uma busca incessante por cada amanhecer.
O sol nascendo para mim, é somente ter você.
 Se por acaso, não vemos um ao outro, só tua voz me acalenta
E a palavra cura a dor da tua ausência. 
Ainda assim, não deixo de clamar teu nome
De ter medo do escuro. 
De morrer aos pouquinhos, 
não sabendo te esquecer.
 Por isso, usamos este artifício, 
lembramos sempre por que um escolheu o outro, 
nosso motivo para viver.













quinta-feira, 25 de julho de 2013

O que não se vê



Olhava para tudo ao meu redor, era uma tarde comum e aconchegante. O céu tinha uma cor alaranjada e as nuvens davam passagem para o colorido se espalhar no horizonte. Eu olhava desatenta para o céu e via nuvens que dançavam junto com a brisa que passava tão calma e melancólica. Minha vontade era de não passar, de ficar ali sentada como quem tem a vida toda para viver. É tão bom ficar quietinha somente olhando, sem deveras ver!
Estava, simplesmente, sentada em um banco de praça entre muitas que existiam no mundo. Apesar desse sentimento de pertencimento cósmico eu sabia que possuía em mim algo intransponível, mas não sabia ao certo, o quê.
Via crianças brincando de se esconder, mães conversando sobre afazeres cotidianos e sobre seus filhos, bicicletas e velocípedes percorrendo a praça bem diante dos meus pés, criaturinhas tão pequenas passavam perto de mim e nem me notavam. Tinha a sensação de estar observando tudo e  no entanto, não estar ser vista por ninguém.
         Ao longe notei que uma criancinha não estava brincando como as outras. Ela tinha na face uma lágrima que parecia não parar de cair, uma lágrima constante. E nos olhos um brilho que não se podia explicar. Parecia uma criança de seus 8 anos, não tenho certeza, cabelos soltos  no compasso do vento, balançava as pernas curtas devagar e em um certo ritmo, como quem se concentrava  para isso. Ela não brincava, não tinha amigos. Parecia triste e ao mesmo tempo não aparentava incômodo por assim estar. Esperei algum tempo na certeza de que alguém se aproximaria dela. Depois de um tempo uma mulher, provavelmente sua mãe pegou sem delicadeza o seu braço, entre xingamentos e gritaria e a levou embora. Fiquei por alguns minutos refletindo na incapacidade humana. Nas mãos atadas, na insuficiência que nos circunda.   
         Quando ainda estava fazendo cogitações sobre a cena anterior, alguém sentou ao meu lado no banco, quase não senti porque o gesto foi simples e brando, assentou como quem não precisa de muito espaço para viver. Olhei para o lado e me senti tão bem. Toda a ideia antecedente se dissipou. Olhos pequenos, cabelos brancos, corpo esguio e um sorriso constante. O pouco tempo que ficou lá sentado, me serviu para vida toda. Eu poderia dizer que ele conversou copiosamente e me ensinou várias lições. Mas não foi isso que aconteceu. Ele só sentou ao meu lado, tem gente que não precisa de palavra para dar um exemplo. Ele distribuía rosas a todos que passavam e, às vezes, como num súbito despertar de sua satisfação ele dirigia-se a mim dizendo que ofertar rosas era seu ofício de viver. Entendi sua satisfação pelo sorriso de quem recebia o presente. Em um momento ele apontou para o céu e pediu que lhe contasse o que eu via. Não entendi, mas comecei a descrever o crepúsculo que surgia tão magnífico. Percebi ao olhar fixo em seus olhos que ele era cego. Mas foi os meus olhos que ele acendeu.
         Os gestos tão distintos dos personagens, mostram o que podemos ser na vida de alguém, o quanto o amor dos pequenos modos podem ser reveladores. Uma tarde na praça, um pôr-do-sol infinito na alma.